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O perfume do desejo

Este conto foi originalmente publicado em junho de 2011, inspirado por uma canção do Rammstein. Du riechst so gut... Naquela noite fria eu corria entre as árvores. A neve virgem cobria o chão, tornando ainda mais difícil a minha jornada. O ar que saia de meus pulmões se condensava diante de minhas narinas e minha boca escancarada. A noite já estava na metade, e a Lua me observava através dos galhos nus. Eu havia perdido o juízo, e seguia em frente apenas por instinto. É estranho lembrar de tudo hoje, como se fosse algum sonho... Minha memória reteve cada detalhe daqueles momentos de loucura. A ânsia, o desejo, o fogo que ardia dentro de mim, a vontade de afundar meus dentes em sua carne... Ainda não sei o que me deixou assim, mas acredito que foi o cheiro dela. O cheiro daquele corpo jovem e firme, cujas curvas perfeitas eram a obra-prima dos deuses. Os cabelos negros que caíam compridos pelos ombros frágeis emolduravam um rosto imaculado. Olhos cor de mel, grandes e chei...

Anoitecer

Meia luz e o Sol se despede numa mistura vívida de cores, perfumes, toques e sons. Azul se confunde com vermelho sobre um fundo púrpura, tudo envolto em luminosidade dourada. Cheiros que a chuva deixou, a Terra lavada que transpira vida. A brisa que, calma e cristalina, toca a pele, beijo suave, agita os cabelos, arrepia. Frio que chega sem alarde arauto da noite que chega, tímida. Uma linha vermelha no horizonte e nuvens tingidas de vermelho denunciam o sono da Luz, enquanto o pano negro pontilhado de prata se estende pelo firmamento, numa simplicidade magnífica. É nesse momento que as lendas acordam, sendo apenas lendas ou não, o que livra a noite do seres inferiores e nos dá liberdade para apreciar a luz prateada da lua na quietude frágil da cidade. ___________________________ 16/04/2012

Poeta da noite

O vento assobiava, entrando pelas fresta da janela, trazendo o frio do inverno para dentro do quarto úmido, iluminado apenas pela vela sobre a mesa. A chuva caía há três semanas, dando curtas tréguas de poucas horas, e toda a casa cheirava a mofo. A tarde chegava ao seu fim, tão cinzenta quanto as últimas manhãs, e a vida parecia ter congelado. Fausto passara os últimos dias sentado em sua cadeira dura, curvado sobre sua escrivaninha velha, escrevendo seus poemas e contos malditos. Não comera nada desde que a dispensa esvaziara, e saíra do quarto apenas para pegar mais garrafas de vinho barato, que seu porão tinha de sobra.