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Mostrando postagens com o rótulo Conto

Uma rosa roubada para Santa Terezinha

Alceu se levantou com dificuldade, tentando reprimir uma reclamação contra o genuflexório, aparentemente mais duro a cada missa. Apalpou os joelhos para amenizar as dores e ficou observando os detalhes da capela enquanto aguardava o início da celebração. Diante do altar estava uma imagem de Santa Terezinha do Menino Jesus, cuidadosamente instalada pelas freiras sobre um estrado de madeira. Ao redor da santinha havia um grande número de rosas, aguardando a benção que viria ao fim da missa. Os únicos sons a romper o silêncio eram preces sussurradas ecoando nas paredes altas, e os folhetos que alguns usavam para abanar o calor intenso que outubro trouxe a tiracolo. A quietude foi quebrada pelos estalos de passos apressados nas escadas da entrada. Sem fôlego, uma menina pediu bênção ao padre, que estava à porta, saudando os fiéis retardatários. Algumas pessoas se voltaram para ver de quem era a voz infantil, tão cheia de urgência e aparente cansaço. Alceu também se virou no banco, e...

Por uma garrafa de uísque

Aquele dia foi peculiar, mesmo para alguém como eu. Acordei com a cabeça doendo, resultado do excesso de álcool da noite anterior. Não conseguia lembrar como fora parar ali, mas sabia que estava em casa, na minha cama mofada e fétida. Tudo fedia no meu apartamento. A umidade pegajosa fazia as paredes exalarem um odor insuportável, que se misturava ao cheiro de comida apodrecida que vinha da pia e do fogão; o sofá era um monte de pano velho, poeira e pulgas; minha cama era muito antiga, e o colchão não passava de uma tira fina de espuma, que transformava as horas de sono em dores nas costas. E era só isso, um único cômodo sujo e bagunçado. O cheiro daquele lugar era inconfundível, e quando acordei tive certeza de que estava em casa. Levantei e me vesti. Na verdade apenas joguei o casaco velho sobre os ombros, pois havia dormido com a roupa do dia anterior, nem mesmo havia tirado as botas surradas. Ao pôr os pés na rua, percebi que não tinha para onde ir. Caminhei sem destino pelos...

A promessa

Steve Johnson A fumaça do cigarro saiu pelas narinas de Augusto, dançando no ar frio da tarde. Ele ignorava as pessoas que se apressavam pela praça, assim como elas não percebiam sua presença. O dia sumiu e a noite trouxe o cheiro de quentão, vindo da feira de inverno. Os apressados deram lugar aos passeantes, interessados nas comidas típicas, nas lembrancinhas, no conteúdo das barracas. Porém, na cabeça de Augusto só havia espaço para um único pensamento, algo sombrio que ele tentava ignorar. Caminhou entre a alegria dos outros, pelas ruas largas onde a vida noturna começava a despertar. Jovens como ele seguiam no sentido contrário, em direção à parte velha da cidade, camisetas de bandas e jaquetas de couro; moças se escondiam nas sombras com vestes insinuantes que desafiavam a baixa temperatura e o vento cortante; botecos  estavam com portas abertas, seus frequentadores já de bochechas rosadas. Mas Augusto não viu nada disso. Entrou no shopping, foi direto ao banheiro e...

Girassol para o falecido

Krappweis Este texto foi publicado, originalmente, em março de 2013. Por uma razão que desconhecia, acabou comparecendo àquele velório, sem conhecer ninguém, nem mesmo o morto. E era contra velórios, achava o evento insólito demais, pessoas chorando ao redor de um cadáver encaixotado. Algumas torradas e xícaras de café para aliviar o desconforto da cena, e ele se obrigou a chegar perto da estrela da festa. Levou um susto quando viu que, estirado no caixão diante dele, estava ele mesmo. Algodão nos ouvidos e nas narinas, terno preto ironicamente bem desenhado e cabelo penteado. No rosto macilento havia um sorriso abobalhado, daquele tipo de que suaviza o nervosismo. Sentiu-se mal diante daquilo, uma fraqueza estranha, e também um vazio que desconhecia, uma mistura de tristeza e raiva, como se nada mais tivesse graça, motivo, sentido. Percebeu os olhos das pessoas, julgando-o. Não, ele não morreu, estava ali e todos os viam. Era apenas uma parte sua que havia falecido: a alegri...

Pele fria

Este texto foi originalmente publicado em setembro de 2011. Heirate mich . Pobre homem que chorava aos urros. Arrastava-se pelos arredores da igreja, cheio de dor e amargura, deteriorando. Alimentava-se dos restos que encontrava no lixo das casas próximas, ou da comida que o padre, caridosamente, às vezes lhe servia. Magro e assustador, com a barba dominando-lhe a face e os cabelos sujos pelos ombros, causava espanto nas crianças e repulsa nos adultos. Nos fundos da igreja havia um cemitério, no qual sua esposa estava sepultada, e o amor que ele tinha por ela era tão forte, que a perda o enlouqueceu. Não conseguiu se conformar com sua morte, e as lembranças dos bons momentos que passaram juntos estavam sempre a lhe perturbar. Passava as noites sobre sua lápide, entregue a lamúrias infindáveis, até o galo saudar o dia. Alheio ao mundo e às outras pessoas, cada vez mais animalesco e agressivo. Nos dias de frio, ardia em seu peito a chama da angústia, pois ele lembrava do calo...

Tempestade

Este texto foi publicado aqui na Caverna, originalmente, em setembro de 2011. Pensando nos acontecimentos que me guiaram até aqui, a primeira coisa que me vem à mente é minha chegada àquele pedaço de terra perdido e distante, que serviu de abrigo para meu corpo durante algum tempo. Um lar solitário no meio de um mar gelado e cinzento. Mas no dia em que cheguei o Verão estava no auge, e o clima era acolhedor. Minha surpresa foi tão grande que quase sufoquei no instante em que abri os olhos. Alguns dias antes eu estava perdido em sonhos impossíveis. O ar que entrava em meus pulmões trazia o cheiro infinito do mar, o perfume abençoado das águas gigantes, útero eterno que me envolvia por completo. Eu subia e descia lentamente, num ritmo hipnótico, e assim estava há tanto tempo que minha alma voava livremente, entre os diversos mundos existentes. Minha respiração acompanhava o movimento das ondas, sem que eu tivesse controle sobre isso. Meu corpo, ao perceber a ausência de minha alma...

O perfume do desejo

Este conto foi originalmente publicado em junho de 2011, inspirado por uma canção do Rammstein. Du riechst so gut... Naquela noite fria eu corria entre as árvores. A neve virgem cobria o chão, tornando ainda mais difícil a minha jornada. O ar que saia de meus pulmões se condensava diante de minhas narinas e minha boca escancarada. A noite já estava na metade, e a Lua me observava através dos galhos nus. Eu havia perdido o juízo, e seguia em frente apenas por instinto. É estranho lembrar de tudo hoje, como se fosse algum sonho... Minha memória reteve cada detalhe daqueles momentos de loucura. A ânsia, o desejo, o fogo que ardia dentro de mim, a vontade de afundar meus dentes em sua carne... Ainda não sei o que me deixou assim, mas acredito que foi o cheiro dela. O cheiro daquele corpo jovem e firme, cujas curvas perfeitas eram a obra-prima dos deuses. Os cabelos negros que caíam compridos pelos ombros frágeis emolduravam um rosto imaculado. Olhos cor de mel, grandes e chei...

Solidão pegajosa

Foto: Heidi Swanson O celular despertou às sete e meia. Fátima se sentou na cama, sentindo o frio da manhã atingir seu corpo em cheio. Com amargura ela olhou para o travesseiro, desejando dormir para sempre entre aqueles cobertores quentes e acolhedores. Lá fora o barulho dos carros era intenso, revelando que a cidade já despertara para mais um dia vazio, e Fátima se levantou para receber a parte que lhe cabia naquele vazio todo. Escovou os dentes na semiescuridão do banheiro minúsculo, ouvindo os sons do apartamento do andar de cima. Alguém tomava banho, duas pessoas conversavam, mas ela não podia ouvir as palavras. Uma descarga foi puxada, a conversa se encerrou e uma porta se fechou. O chuveiro continuou ligado. Fátima tentou imaginar como seria a sensação de compartilhar a vida com outra pessoa, ser íntima de alguém. Provavelmente o casal do andar de cima tomaria café da manhã junto. Talvez não fosse nada de muito especial, mas haveria a conversa, o toque, o contato visual....

Jantares solitários

Oyvind Solstad Cecília limpou a boca no guardanapo de papel e relaxou na cadeira. Devagar, bebeu o vinho que restava na taça, olhando fixamente para o prato vazio e sujo de molho. O sorriso em seu rosto jovem expressava o prazer que permeava sua mente. Ela se levantou e levou a louça suja par a cozinha, ainda sorrindo, com olhos perspicazes perdidos no ar, como quem se perde em pensamentos.

Uma jornada sem fim II - Pântano

Christine Três dias após ter atravessado o rio, tive que levantar acampamento antes da hora, pois no meio da tarde uma chuva suave começou a cair. O dia abafado havia exigido muito de minhas forças e de minha determinação, mas as gotas geladas trouxeram conforto para meu corpo, e reflexões para minha mente.

Uma jornada sem fim I - Travessia

Mark Devine Cheguei ao rio que demarcava os limites do norte, largo e de águas ágeis, mas não muito profundo. Corria gélido por entre as árvores, como uma cicatriz viva no meio da floresta densa. Abri caminho através dos arbustos, saindo das sombras, e a luz cinzenta do dia me fez piscar. Ensaiei um passo inseguro nas pedras lisas, mas voltei e observei o outro lado do rio.

A dona de toda a beleza

dmolla Vi o amor da minha vida no topo da pequena elevação. Atrás dela o sol de fim de tarde brilhava com intensidade num céu azul. Subi devagar, encantado pela visão, pensando na paixão que sua beleza acendia em mim. E naquela tarde ela era a própria encarnação do fascínio, em seu vestido ciano, cabelos negros e longos dançando na brisa que vinha do mar, e o sorriso me convidando.

Pôr do sol

belinda197 Melodia magistral, que me envolveu num dia cinza de outono. O sol se despedia, deitando-se em seu leito distante. Uma coruja piou ao longe, e das árvores eu pude ouvir a última algazarra dos pássaros que se recolhiam para pernoitar.

Um conto de Taavi

Durante a noite uma névoa dominara a paisagem, coroando a lua com um círculo colorido. Taavi praguejou baixo por ter certeza de que a neblina traria um céu incomodamente azul no dia seguinte. Tamanha foi sua surpresa quando viu o dia surgir através de um teto cinzento.

Uma fazenda chamada Sofrimento

lmickles Havia, no interior, uma região árida e infértil, longe de tudo. E no meio deste ermo havia uma grande fazenda chamada Sofrimento, onde havia uma plantação de tristezas. Tristeza era o único tipo de planta que nascia naquele solo prejudicado, que só era regado quando alguém derramava ali suas lágrimas.

Para continuar vivo

Escrevia para continuar vivo através das palavras. Nelas ele vivia o que queria, fosse como protagonista, antagonista ou expectador. Escrevia sobre a cor do céu e da grama, e sobre as sensações que o vento provoca, tentando descrever os odores que o ar carrega.

A lebre e o lobo

tome213 Num dia sem poesia, com a garoa fina criando uma névoa que escondia os prédios, como cortina branca e translúcida, ele encontrou a si mesmo, mas estava diferente. Não trazia aquele sorriso de sempre, e sim uma expressão áspera e esperta. Seu Eu áspero falou, e sua voz era cheia de sarcasmo.