Foto: Heidi Swanson O celular despertou às sete e meia. Fátima se sentou na cama, sentindo o frio da manhã atingir seu corpo em cheio. Com amargura ela olhou para o travesseiro, desejando dormir para sempre entre aqueles cobertores quentes e acolhedores. Lá fora o barulho dos carros era intenso, revelando que a cidade já despertara para mais um dia vazio, e Fátima se levantou para receber a parte que lhe cabia naquele vazio todo. Escovou os dentes na semiescuridão do banheiro minúsculo, ouvindo os sons do apartamento do andar de cima. Alguém tomava banho, duas pessoas conversavam, mas ela não podia ouvir as palavras. Uma descarga foi puxada, a conversa se encerrou e uma porta se fechou. O chuveiro continuou ligado. Fátima tentou imaginar como seria a sensação de compartilhar a vida com outra pessoa, ser íntima de alguém. Provavelmente o casal do andar de cima tomaria café da manhã junto. Talvez não fosse nada de muito especial, mas haveria a conversa, o toque, o contato visual....