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Mostrando postagens com o rótulo Tristeza

Solidão pegajosa

Foto: Heidi Swanson O celular despertou às sete e meia. Fátima se sentou na cama, sentindo o frio da manhã atingir seu corpo em cheio. Com amargura ela olhou para o travesseiro, desejando dormir para sempre entre aqueles cobertores quentes e acolhedores. Lá fora o barulho dos carros era intenso, revelando que a cidade já despertara para mais um dia vazio, e Fátima se levantou para receber a parte que lhe cabia naquele vazio todo. Escovou os dentes na semiescuridão do banheiro minúsculo, ouvindo os sons do apartamento do andar de cima. Alguém tomava banho, duas pessoas conversavam, mas ela não podia ouvir as palavras. Uma descarga foi puxada, a conversa se encerrou e uma porta se fechou. O chuveiro continuou ligado. Fátima tentou imaginar como seria a sensação de compartilhar a vida com outra pessoa, ser íntima de alguém. Provavelmente o casal do andar de cima tomaria café da manhã junto. Talvez não fosse nada de muito especial, mas haveria a conversa, o toque, o contato visual....

O fim da vida

Este poema é registro de tempos ruins que ficaram para trás, mas a superação não tira o mérito dos versos. O marinheiro que deu meia volta guiou o navio até o litoral mais próximo. Ele não consegue mais navegar naquele oceano escuro e revolto que leva o nome da vida. Que a praia seja fria e desprovida de encantos; que depois da areia só exista mato e pedras; que o alimento seja escasso; que os ventos frios sejam constantes; que o sol jamais vença as nuvens. Não importa. O marinheiro não navega mais. Não existe destino promissor além do oceano. O navio arde em chamas na areia. A vida acabou. ___________________________ Marlon Vieira, 24/07/2013.

Aconchego

A ira violenta que domina a mente se mistura à tristeza que pesa no peito tudo em uma única onda de pesar. Mas tudo isso falece diante de seus olhos, Coruja do meu céu escuro, aconchego brilhante no meu mundo sem luz. ___________________________ 03/05/2013.

Uma fazenda chamada Sofrimento

lmickles Havia, no interior, uma região árida e infértil, longe de tudo. E no meio deste ermo havia uma grande fazenda chamada Sofrimento, onde havia uma plantação de tristezas. Tristeza era o único tipo de planta que nascia naquele solo prejudicado, que só era regado quando alguém derramava ali suas lágrimas.

Árvores secas

Krappweis Cristofer entrou na cafeteria e foi direto à mesa do canto, onde havia uma mancha de umidade no papel de parede. Provavelmente ele era a única pessoa que se sentava naquele canto. Pensou em puxar um livro  para ler enquanto tomava um capuccino e comia um pedaço de torta, mas viu que a atendente que saiu do balcão para atendê-lo era aquela moça de sempre. "Amanda o nome dela? Acho que é Amanda." - Oi! - disse Amanda, sorrindo. - Oi! - respondeu Cristofer se esforçando para sorrir também. Por fim conseguiu fingir uma expressão de contentamento, aquela que se espera que surja no rosto quando temos que conversar casualmente com alguém. - Você sumiu, pensei até que tinha se mudado. - É, faz tempo que não venho aqui. - "Sumi de tudo, sumi das pessoas, e queria que o mundo sumisse também." - Que bom que veio! - disse Amanda, empolgada, mas corou em seguida. -Quero dizer... que bom que voltou. Bom. Era capuccino e um pedaço de torta de limão, certo...

Crepúsculos

Foto: lyric1459 - Alô. - Oi. - Ah, é você... - Sim. Não desligue de novo, por favor...! Ainda está aí? Alô? - Sim, sim... O que quer? - Eu... só queria te ouvir mais uma vez... - Olha, já tivemos esse tipo de conversa antes, você já me ligou falando a mesma coisa, e você sabe que eu não quero falar sobre nós. Aliás, você sabe que eu não quero falar com você. Estou tentando te esquecer, tenho o direito que querer distância de você, e você deveria respeitar isso, já que diz me amar tanto. - Ok, ok, desculpa. Eu sei que é errado. Mas desta vez eu realmente só queria ouvir sua voz... Não tenho esperança nenhuma sobre a gente, eu só... precisava te ouvir. - Então pronto. Já ouviu. Vou desligar. - Não, calma! - O que é? - É que... você está sendo hostil demais... - E o que esperava de mim? Carinho? Um tratamento especial? Simpatia? O que aconteceu com você? Ficou idiota de repente? - Calma, calma, por favor, eu não liguei para brigar! - Então pra quê ligou? - Já falei, ...

Cotidiano 23

Na estação, todos os trens são idênticos. Todos as pessoas são a mesma criatura, inimigos incansáveis ao seu redor, presença constante nos dias felizes e nos dias tristes. E você é só um grão de poeira no vento, apenas uma alma que se perde nos gritos. Sem enxergar a vida ao seu redor, vendo apenas o ar imundo da cidade, o silêncio de dentro é mortal, é nocivo, enquanto os trens urram sem parar, enquanto os outros vomitam palavras. Hoje você é um deles, amanhã você os repudia. E o mundo te molda, argila. O mundo te moldou, fez o que quis com você,  e a vida te transformou, te criou. Veja a mancha à sua volta, a velocidade das pessoas, correndo, um borrão. Você faz parte disso, desse tudo imundo. Agora você destrói tudo dentro de si. Suas veias latejam, pois o ciclo acabou. Só o que resta é uma canção bonita quando você apaga os terrores que viveu. As manchas do passado desaparecem quando você incendeia e se livra do teu mal. E enquanto você destrói es...

Vazio cinza

Tudo é cinza neste dia. Tudo está vazio. E morto. Cinza, vazio e sem vida. E inútil é o esforço ao enfrentar esse vazio que, palpável, tomou meu corpo. Existe um certo pássaro, meu orgulho, amor e paixão, sabedoria jovem, tenra, tantas vezes em meu coração que minha alma já não conta, tamanha é nossa perfeição. Que todos vejam quão maldita e desgraçada é minha sorte, tormenta vil sob minhas asas. Ela, a Coruja do Norte, a minha metade perfeita, ao voar trouxe-me a morte. Mas foi tão belo nosso vôo! Nós percorremos todos os céus, e planamos sobre os ventos. Juntos rasgamos o tênue véu que separa todas as vidas, nos versos do grande menestrel. Nossas asas batiam juntas, e todos nos admiravam. Pois nos amamos tantas vezes, que ao redor cores brilhavam, reflexos de seus lindos olhos que a mim tanto encantavam. Amantes como nós, nunca, nunca, jamais a Terra verá! Como Afrodite e Ares, um amor que sempre arderá, com guerras e gritos de prazer, um a...

O Andarilho e a Rosa

O andarilho escala a pacífica montanha, perdido em seus desejos. O vento o acompanha, soprando suavemente, uma sensação estranha. Com o coração pesado, caminhando lentamente, perdido em sentimentos, em sua dor insistente, no amor pela bela flor, na paixão incandecente. A flor, graciosa rosa, no topo, próxima do céu, dança sob o crepúsculo. Doce perfume, rubro véu, é melodia divina, inspiração do menestrel. Feliz, esperançoso o andarilho prossegue, sem conhecer a tristeza que o destino lhe tece,  e confuso não pode ver, confuso ele se esquece. Enfim alcança o topo, alegre e jubilante. A linda rosa lhe sorri, poesia de instante, amor antigo, fervente, amor antigo constante. Leve, no vento ela vai. O andarilho congela. Conforme-se, viajante! Preso por paixão sincera não vê uma nova vida, e não vê como é bela. Marlon Weasdor, 28/05/2008