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De olhos fechados

De olhos fechados encontro o meu eu bruto e simples animalesco e sublime fera que encanta por sua força sua voracidade, sua inexorabilidade. De olhos fechados eu grito como um ser primordial cheio de raiva essencial aquela que originou guerras entre nossos ancestrais a raiva instintiva, incontrolável que domina, que cega. De olhos fechados ouço meus tambores e minhas feras respondem e assim como o Lobo eu descubro que não estou só acompanhado e guardado por muitos seres. De olhos fechados eu posso me curvar perante minhas feras aladas que dominam meu céu o firmamento violento de minha alma e nada pode detê-los. De olhos fechados eu percebo que o fogo do abismo é eterno assim como minhas vozes uivantes clamando por terra e sabedoria por sangue e dor invocando meus deuses antigos. De olhos fechados mal consigo controlar meu dragão verdadeiro e sincero animalesco e magnífico senhor do fogo e da sabedoria de irresistível beleza. De olhos fecha...

Pântano e jardim

O vento acalmou as minhas dores vis num momento de paz após a tormenta, e não pediu favores ou pagamentos naquela tarde gelada e cinzenta. Dormiu o sofrimento que me afligia e desapareceu minha agonia. O pântano fétido chamado ego ficou para trás numa doce ilusão, subjugado por um encantamento que feriu meu orgulho, levou-o ao chão. Infértil momento de sorriso débil, de vã alegria e meu amor flébil. Agora ando num jardim primaveril, cercado por luzes, tudo é dourado e meus pés tocam terra firme e seca, num lindo mas irreal mundo borrado... Que meu mau pereça, mesmo que eu pise em poças de lama nos dias de crise. ___________________________ 30/01/2012.

Elegia

Aqui estou eu, me olhando, meu coração nas mãos, sangrando. O navio chacoalha na beira do mar, meu último refúgio a me esperar. Abri os braços para o silêncio, me entreguei ao último incêndio. Quando o barco arder sobre o mar, saberei que deverei recomeçar. O céu é cinza, ameassador, como o horizonte negro, opressor. É o expurgo da minha alma velha, que logo deverá retornar, bela. A hora chegou, o horizonte se abriu. Luz dourada no mar, o Sol surgiu. Meu fogo trará purificação, minha alma voltará em redenção. Deitado em meu navio fúnebre naveguei pelo oceano lúgubre, ouvindo a elegia terna canção da morada eterna. Flecha em chamas cortando o céu, acende a pira que trará o véu da morte inexorável sobre mim, réquiem sublime do necessário fim. Agora eterna, minha alma espera que o fogo devore minhas feras, para em seguida surgir um novo ser, um novo Eu irá viver. ___________________________ Marlon Weasdor, 26/01/2011

Guille e a bola

Olá. Meu nome é Guille. Guille de Rais. Como o de Gilles de Rais, aquele francês maluco, amigo de Joana D'Arc, que matava todo mundo. Meu pai me deu esse nome. Não sei porque, mas o infeliz achou que ter o mesmo nome que um assassino do século XV era algo legal. Nem francês eu sou, apesar de ter muitos antepassados franceses. Eu até entendo que ele quis me dar um nome imponente, algo que remetesse a terror, medo, força, sei lá. Às vezes acho que era só para combinar com minha cara de mau. Sim, meu pai sabia que eu teria cara de mau desde quando eu era um bebezinho. Mas não me levem a mal, eu gosto do meu nome, só quero deixar bem claro que não sou nenhum depravado, pedófilio, infanticida, assassino, pirado, essas coisas.

O jardim de Afrodite

O jardim parecia lutar contra si mesmo, tentando ser o pedaço de terra mais verde e brilhante do mundo. A chuva forte acabara de passar, e as nuvens começavam a se espalhar, deixando nesgas de azul berrante surgirem no céu. Alguns trovões ainda podiam ser ouvidos, distantes, e enquanto o Sol voltava a reinar um arco-íris surgiu. O vento leve e fresco agitava as folhas das árvores, e as roseiras acenavam para o casal que, da sacada do quarto, observava o mundo se acalmar depois da tempestade.

Sobre vida e amor

Enquanto a chuva, ruidosa, caprichosa, escorre pelo ar, a moldar minha úmida realidade, a verdade que ecoa em minha mente, simplesmente, é a vida querida que me espera ao longe, onde minha nervosa alma se acalma, ao encontrar pelo ar o meu doce amor. Escorrem minhas lágrimas, lástimas e antigos tormentos, momentos de dor ou alegria, euforia, quando meu amor sorri aqui, deitada ao meu lado, sagrados instantes de felicidade, cumplicidade, história antigo. Consigo imaginar nosso passado, traçado perfeito de linha da Vida. Meu peito se enche de alegria todo dia, ao pensar que ela, minha bela, vai cuidar de mim até o fim de nossa vida, aguerrida mas cheia de amor, esplendor verossímil e superno, sempiterno, canção perfeita que estreita nossos laços, traços singelos de amor. ___________________________ Marlon Weasdor, 04/01/2012